Sábado, Julho 29
Alternativa:
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Doodie
Quinta-feira, Julho 27
Sem imagem, hoje.
Escrever sobre minhas férias é sempre tarefa árdua pra mim. Isso porque, primeiro, eu detesto quando meu blog adquire um tom confessional e, em vez de divagar sobre coisas que realmente me importam, acabo por me ocupar com o trivial; segundo, o discurso não obedece a uma escala ascendente, tornando-se uma narrativa, que termina com um desfecho. É nauseante. Ainda não entendo como tem gente que diz gostar do que escrevo. Mas se ainda existem bem-intencionados e/ou se tendo ao aprimoramento -- pedra fundamental deste blog, sempre deixei explícito isso --, embarco nessa viagem pelos dantescos mares da lembrança, uma vez que, como disse Fernando Pessoa em seu famigerado e batidíssimo verso, "Navegar é preciso".
O mês não poderia ter começado de maneira melhor, com o meu aniversário. Como no ano passado, comemorei no final de semana inteiro, porque a providência divina permitiu que completasse minha maioridade num sábado. Então, desde sexta à noite, estive com os amigos, falando muita besteira, fazendo contagens regressivas, ouvindo música boa e indo para balada, a fim de que exercitasse o espírito libertino que se encontrava em estado vegetativo. A espera compensou, ao menos. Essas frases, para alguns, não devem fazer o mínimo sentido, mas é uma delícia deixar registrado que, depois dessa data, as coisas só melhoram no que tange ao campo afetivo-emocional. Talvez alguns ritos de fato existam, só que os ignoramos, ou acontece de eles passarem despercebidos pelos aparatos da contemporaneidade.
Após os 18, não obstante, estou livre da sombra do exército. Ainda não acabou a chateação de madrugar na sub-prefeitura do meu bairro, porque careço de obter o certificado de dispensa, mas pensar que não terei de me reunir a um bando de moleques -- fúteis, na maioria --, num galpão onde a luz que vinge é a elétrica, é uma boa sensação: sei que agora posso me compromissar com cursos e tarefas de médio-longo prazo. Posso e consegui arranjar um emprego legal. Não é algo muito voltado pra área publicitária; o ambiente, as pessoas, a carga horária e o salário, entretanto, compesam -- até diria que são impagáveis, mas não são, na realidade. Com efeito, posso dizer que construí um novo círculo de amigos, diferente dos outros, senão únicos. É piegas, eu sei, mas quem se importa?
As aulas reiniciam-se na segunda-feira. Diferente do começo do ano, não sinto um ressentimento ao lembrar das pessoas desagradáveis e daquelas que tentam incorporar publicitários estereotípicos; sinto até um alívio, pois sei que vou rever alguns dos rostos que têm tornado esse ano especial -- por deus, eu ESTOU piegas. A quantidade absurda de trabalhos vai voltar e tornar-me-ei -- ô mesóclise maldita -- mais ocupado do que antes, dado a nova e bem-vinda existência do trabalho. Se antes já reclamavam pela e da minha ausência, agora, quem sabe, meu nome vá parar na boca do sapo. Esses devem me imaginar como uma espécie de entidade virtual, sempre on-line para ler e servir de consolo para suas utopias, teorias macabras e saco-de-risadas para piadas infames e infelizes. Como toda entidade é mítica, vale a ressalva que, como tal, só corroboram o medo que temos quando percebemos que estamos, e sempre estivemos, sozinhos.
Doodie
Sábado, Julho 8
Brasil-pandeiro.
É claro que por mais isento que eu tentasse ficar perante à copa, de um modo ou de outro, seria atingido por suas conseqüências. Não fiz questão nenhuma de assistir aos jogos e, mesmo que o quisesse, não conseguiria, dado a quantidade absurda de trabalhos da faculdade -- como todo trabalho acadêmico, estes me exigiam grande parte do tempo para que tivessem qualidade, e neles não sobrassem resquícios do Ensino Médio; tem gente que não entende isso. Nos dias de jogo do Brasil, a maneira máxima pela qual me envolvia com as partidas, era pela audição, uma vez que do prédio da faculdade eu conseguia ouvir os gritos de desespero, as risadas de júbilo, sem contar, é claro, com um terremoto de pequena magnitude em minha imaginária escala Richter. As coisas iam prosseguindo bem. Eu ficava satisfeito por não me envolver emocionalmente com o time dos canários -- mal sei qual apelido eles vieram a receber. Só não ficava nada feliz por eventualmente estar no meio de um trânsito absurdo que precedia uma calmaria até maior que a dos dias de PCC.
Pois bem, no dia do meu aniversário, eu estava na casa de uma amiga da escola, comemorando com outros o tão famigerado dia. (Incrível como que, por mais diversas sejam nossas opiniões e divergentes sejam nossas linhas de raciocínio, eu me sinto bem perto deles. Sabe quando não paramos de olhar para o relógio, tentando lançar-lhe feitiços inaudíveis, capazes até mesmo pela feitura do retardar dos apressados ponteiros?) Parênteses findos, continuo o relato: os rapazes dividiam sua atenção entre o jogo do Brasil e França, e o que acontecia nos arredores da sala -- leia-se cozinha. Preparamos o almoço, o bolo e, enquanto esperávamos até que esses ficassem prontos, fomos assistir ao tal jogo. Patético. Se eu cheguei a palpitar no jogo, cerrar meus punhos e desviar o olhar, foi porque a coisa estava realmente crítica. Foi melhor que saísse da sala e voltasse ao estado de ânimo em que me encontrava no momento anterior à disputa do maravilhoso, sensacional, minha-tevê-de-plasma-gratuita-nas-casas-bahia time do Brasil.
Ao vir embora, sentado no banco da lotação, percebo que há uma senhora maltrapilha, sentada na parte posterior do veículo, exorcizando os fantasmas da copa. Gritava suas desilusões, pedia que os passageiros atentassem para o caráter divino outrora atribuído aos Ronaldos -- ela tentava, inclusive, caricaturizá-los, enrolando o lábio superior para dentro, abrindo generoso espaço para os dentes amarelados e esburacados. Fato era que nossa mui amada torcedora estava alcoolizada. Após um certo instante, seus ouvintes já demonstravam sinais de irritação, tanto é que foram contemplados pela discussão entre a senhora fanática e uma outra, arauta dos que queriam ir tranqüilamente para suas casas, dos que não suportam a ausência de lógica, dos que dissimulam uma espécie de "erudição de caráter" em nome da aprovação alheia. O bate-boca envolveu desde a própria situação da "transgressora", o alcoolismo, até questões mais banais, como, por exemplo, se a madame sofria com o adultério de seu marido. Toda discussão, é bem verdade, habitava o plano do léxico claríssimo, não havendo, em nenhum momento, recorrência à prolixia. Assim, os passageiros eram brindados por cornas, chifrudas, filhas-da-puta, etc.
Após o fim da discussão, envergonhada da desordem que causara, a velha senhora sentou-se novamente e resignou-se, enquanto a outra mantinha sua cabeça erguida e a pose altiva, como se nada lhe ocorrera. Para essa, que já estava anestesiada pelas pancadas cotidianas, era muito fácil dissimular a dor; àquela, uma lágrima somente não conseguiria conter toda sua infelicidade. Emudeceu-se e desceu num ponto mais à frente. Era a seleção da gente simples que perdia para a seleção dos, mundialmente, já-declarados vencedores.
Doodie
Segunda-feira, Junho 5
Se tem uma coisa que me intriga, é o sinal amarelo. Sua presença é totalmente neutra: não instiga a velocidade, como o verde, nem a passividade, como o vermelho. Na realidade, o ânimo provocado no motorista é muito mais psicológico que mecânico. Isso pois antes de seu aparecimento, tenta-se evitá-lo ao máximo, a fim de que uma espécie de julgamento não ganhe contornos nas ruas e avenidas das cidades. O julgamento parte de ambas as partes: pedestre e o próprio motorista. O primeiro, ao analisar friamente a concepção da cor amarela, dirigindo olhares rápidos e instigantes ao condutor e à luz; arrisca pôr um de seus pés para fora da calçada, anunciando sua passagem, que não passa de uma hipótese. O segundo, por esperar a compreensão dos transeuntes e, principalmente, por atribuir ao tempo um caráter etéreo, dado que, quando se acelera, os ponteiros do relógio parecem integrantes do pandemônio causado pela vida atarefada, egoísta e fugaz dos grandes centros urbanos.
O verde conota, principalmente, no Brasil, o aspecto positivo, exacerbado quando é trazida à tona a memória da Amazônia. A floresta passa a ser objeto de mistério, senão uma grande mãe, presente não somente no hino nacional, mas na própria bandeira. Essas matas, logo, fazem parte dum código assimilado por nós e, juntas ao céu, azul, endossam a nacionalidade de nosso povo. Pode-se dizer, também, que a atração sentida por tais cores é devido à constante investida à sua integridade, isentando-lhe, aos poucos, do caráter natural que figura desde sempre. Contrapõe-se, assim, ao vermelho, cor do sangue, da doçura das frutas, do pau-brasil. Sua simbologia quase vale por si, se não fosse por seu aspecto antitético, o que a torna integrante dum patamar de cores, passível de ser comparada a outras. Incrustada no material negro e sintético do farol de trânsito, ela alude ao perigo e possibilidade iminente, caso sua presença seja ignorada, da tragédia.
O amarelo pode, então, transmutar-se em ouro, por sua ambivalência -- maior que a do próprio vermelho. O ouro é metáfora da riqueza, vida pomposa, objeto falsificado no cotidiano e que desperta a fantasia de severinos que clamam usá-lo em seu corpo. Ouro é o sol, representado por Apolo, deus do equilíbrio e da perfeição, retidão de caráter, beleza e fidelidade. É a salvaguarda dos pedestres apressados, ousados em seus caminhos, que expõem as frias carnes de seu corpo à possiblidade do encontro com os quentes e furiosos vapores do motor. A despeito da ambivalência supracitada, não se deve esquecer a menção dos outros predicativos áureos que, por mais históricos e ultrapassados que sejam, existiram num fragmento de tempo. Em certas civilizações, o ouro era considerado o excremento dos deuses, sendo, portanto, objeto amaldiçoado de que todos queriam se ver longe. Não obstante, algumas religiões atribuem esse elemento à serpente, expressão máxima do pecado. Por fim, na ilha de Utopia, ele tinha seu valor destituído de tal modo, que as correntes e coleiras dos escravos eram confeccionadas a partir de lascas de ouro.
O sinal amarelo é o feto abortado pela sociedade que abriu mão da loucura e adotou o método. É a luz que inebria milhões de ratos, diariamente, sendo deles esperada reações posteriormente registradas numa multa do DETRAN. É, deste modo, o grande triunfo de Skinner, mas também a sobrevivência da filosofia heraclitiana: longe de ser o verde ou o vermelho -- por mais próximo que deles esteja -- o sinal amarelo é um eterno devir. Nunca sabemos o que esperar das pessoas quando se dispõe diante do mesmo, sendo a ele atribuída uma mudança constante, impossível de ser apreendida somente em aulas para formação de condutores. Antes, sua existência pressupõe uma vivência ou falência múltipla dos órgãos.
Doodie
Segunda-feira, Maio 1
Dos amores.
É certo que nunca tive um amor. Mas, antes, explico o que entendo por esse termo: ciência absoluta de ambas as partes que não se restringe ao campo afetivo, mas dá asas à imaginação; fundamenta-se no campo do ciúme, sendo, portanto, uma relação restrita a dois corpos, duas mentes, dois olhos que, por mais distintos e diversos que sejam perante aos outros, complementam-se e entendem-se mutuamente. O amor é também artigo de luxo, de modo que muitos querem tê-lo, mesmo não sabendo engendrá-lo no cotidiano nem nas mínimas ações que, juntas, constituem um universo inteiramente novo, dono de sentidos e sentimentos autônomos. Por essa visão, posso afirmar, quase que com plena resolução, que o amor está extinto, enquanto consumado.
Não me espantaria em me deparar com olhares de reprovação, muito menos com as nada bem vindas palavras de agressão; antes, é compreensível que o inconsciente coletivo tenda a reprimir toda forma de transgressão a sua moral amorosa e busca pelos meios que a consolidem, apontando no ser questionante o fracasso em se adaptar ao mundo, quando não a própria instransigência para com a vida. Esta que, não obstante, regrada em todos os aspectos, ficou restrita à busca do prazer individual, seja o que repousa no capital, seja o que estrangula a metafísica. Muito mais que o entendimento do que é o amor, penso que a contemporaneidade busca a idealização de uma utopia que não lhe está ainda esclarecida, mantida sob os véus da opinião alheia.
O platonismo entra, então, como válvula de escape àqueles que se vêem ou não subjulgados pelo imperativo do amor: tanto os senhores de doutrinas filosóficas -- os que sempre se abstêm do mundano, para formular um conceito próprio --, quanto os escravos do chicote rouge -- objeto pelo qual Eros, abandonando seu arco, investe contra a humanidade. Isso pois a mentalização do vir-a-ser, possível ou não, resulta em mudanças nos atos e gestos do amante, conferindo-lhe um aspecto pacífico na fala e belicoso no raciocínio. Nada, nessa relação, se conclui; tudo, logo, é uma hipótese, uma dúvida, um esboço.
Quando a linha nada tênue entre o real e imaginário é, doravante, transgredida, uma sucessão de eventos escatológicos dá-se a iniciar -- e não me utilizo de hipérbole, todavia. O deus que fora construído com tanto esmero é auto-destruído por golpes de martelo, uma vez que seus gestos todos desmitificam a si mesmo. Do posto de deidade, o ser é concebido ser-humano, passível, como tal, de errar. A relação, se continuada por opção do primeiro amante, pode assumir um de três aspectos: transformar-se em algo totalmente diferente, em que o real equivaleria ao todo outrora imaginado (caso análogo ao citado no primeiro parágrafo); tender a monotonia: a satisfação não foi atingida e a conveniência do casal passa a ser o puro comodismo; rompimento.
Não podemos escolher qual dos amores queremos para nós, entretanto, e, mesmo que pudéssemos, ambas as escolhas carregam em si a mesma quantidade de prós e contras: se uma envolve duas pessoas, a outra é uma espécie de megalomania; se a primeira de fato acontece, a segunda se isenta do indesejável, habitanto o paraíso imaginário proustiano; aquela é comunhão, essa é exclusão, etc. Não existe aquele que, em fim de vida, nunca amou nem sofreu por causa de alguém, assim como não existe recém-nascido que não chore quando o sopro de vida lhe queima os alvéolos. Assim como à morte, estamos todos condenados ao amor, mesmo que em uma única vez em nossas vidas.
Doodie
Quinta-feira, Abril 20
Pasmo.
Porque meu instrutor usou a palavra 'subterfúgio'. Sim, vocês não leram errado.
Doodie
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